O trabalho que explora e aliena
Em janeiro e fevereiro li dois livros muito bons que, apesar de bastante diferentes, abordam o mesmo tema: o trabalho como forma de exploração e alienação.
Não é um tema novo. Mas é talvez algo que tem vindo a estar cada vez mais presente em diversas formas de arte – dos livros, ao cinema e ao teatro – sobretudo com o rápido crescimento de formas de trabalho altamente precárias e atípicas e, simultaneamente, com o retrocesso em muitos aspetos protetores da lei do trabalho (basta pensar na proposta de reforma laboral do atual governo).
O trabalho que explora
Solitária, Eliana Alves Cruz
Li este livro por recomendação do clube de leitura Antirracista da Elga Fontes que, já agora, faz um trabalho incrível e tem sempre excelentes recomendações. Recomendo mesmo que sigam o trabalho dela.
Nunca tinha ouvido falar nem do livro nem da autora. Eliana Alves Cruz é uma jornalista e autora brasileira. O seu romance de estreia, Água de Barrela, ganhou em 2015 o prémio literário Silveira Oliveira. Solitária, o seu romance mais recente (2022), pode ser encontrado nas livrarias habituais (Bertrand, Wook, etc.), mas se quiserem apoiar livrarias independentes podem encontrar o livro, por exemplo, na Greta Livraria (apoiem a Greta!!) ou na Livraria da Travessa.
Nesta obra, ficamos a conhecer a história de duas mulheres negras brasileiras, Eunice e Mabel – mãe e filha – que vivem num pequeno quarto no local de trabalho de Eunice. Eunice é empregada doméstica num daqueles condomínios de luxo onde o fantasma da escravatura está ainda bastante presente.
Em poucas páginas, a autora conta uma belíssima história sobre a dura realidade do trabalho doméstico feminino no Brasil, mas também sobre a relação, muitas vezes complicada, entre mãe e filha. É impossível não nos apegarmos às personagens, à Mabel e à Eunice, mas também a todos os outros trabalhadores do condomínio que vão aparecendo ao longo da história.
O livro está dividido entre as perspectivas de Eunice e de Mabel sobre as suas vidas, uma escolha muito interessante porque nos permite ver como as duas têm noções completamente diferentes sobre as suas vivências, algo que causa um conflito permanente entre as duas. Ao mesmo tempo, cada capítulo tem como título o nome de uma divisão ou de um espaço físico dentro do condomínio. Esta é outra escolha muito interessante, sobretudo quando a última parte do livro é mesmo narrada pela própria casa. Gosto sempre quando o narrador de um livro é um ser não humano e esta ideia de que as nossas casas e as nossas paredes e divisões vivem a nossa vida connosco e são testemunhas dos nossos dias pareceu-me particularmente bonita. “Sim, quartos se emocionam. Cômodos também se encantam e escandalizam. Concreto imprime memórias.”
Não querendo estragar a revelação de um dos crimes que aconteceu neste condomínio (porque, além de uma outra situação que acontece na história, diria que o comportamento da família para quem Eunice trabalha é, muitas vezes, criminoso), há um acontecimento no livro que se baseia num caso que ocorreu mesmo num condomínio de luxo no Recife, em 2020 (um caso que não teve um desfecho nada justo).
Mas este é apenas um dos temas do livro. Solitária é mais do que um livro sobre um crime. É sobre o trabalho doméstico que explora os corpos das mulheres, desproporcionalmente mulheres racializadas e de grupos sociais mais desfavorecidos. É sobre a violência que é imposta a estas trabalhadoras, tantas vezes não reconhecidas como tal, que são “quase da família”, mas que nunca parecem ter direito às suas próprias famílias, às suas próprias casas e aos seus próprios espaços de descanso. Afinal, como a autora diz, “O quarto de descanso é todo aquele que tem o cheiro da nossa própria vida.”.
Ouçam a série Quase da Família do Fumaça se tiverem interesse em aprender mais sobre este tema. Ou leiam o livro Caruncho, da Layla Martínez, se, depois de lerem a Solitária (e sem querer estragar a história) tiverem ficado com vontade de ver a família rica sofrer algum tipo de consequência (quem nunca?).
O trabalho que aliena
O Desencanto, Beatriz Serrano
Num registo absolutamente diferente, O Desencanto, de Beatriz Serrano, aborda o tema do trabalho com humor satírico (e meio depressivo, estejam avisados). Beatriz Serrano é uma jornalista e autora espanhola. O Desencanto é o seu primeiro livro, sobre uma mulher, Marisa, na casa dos 30, que absolutamente odeia o seu trabalho e tudo o que faz parte dele: a rotina, as tarefas, os colegas, os chefes, enfim, no geral, é uma pessoa altamente insatisfeita com a sua vida (é importante dizer que Marisa trabalha numa agência de publicidade e o seu trabalho é pensar em campanhas para marcas de produtos cosméticos e afins, ou seja, a sua depressão é perfeitamente compreensível e justificada). Entre um trabalho desinspirado, tarefas repetitivas, reuniões inúteis e um sem fim de anglicismos desnecessários (report, debrief, kick off, …), Marisa sonha frequentemente com ser atropelada a caminho do trabalho para não ter de lá ir mais.
É um livro incrivelmente divertido e mordaz, mas também meio lunático. A personagem parece estar sempre assim num estado meio febril de se querer desligar da realidade. Acompanhamos Marisa ao longo de uns dias de trabalho em agosto e torna-se óbvio que a única forma que ela encontra para aguentar o seu dia-a-dia é tomando ansiolíticos atrás de ansiolíticos e vendo vídeos atrás de vídeos aleatórios no Youtube, até atingir um estado de entorpecimento tal que a faz esquecer o quanto odeia o seu trabalho.
O livro lê-se muito rapidamente e é mesmo muito divertido em algumas partes (o capítulo do fim-de-semana com o team building é das coisas mais engraçadas que já li), mas é ao mesmo tempo muito duro e profundamente desconfortável quando paramos para pensar que este livro é sobre a profunda solidão e alienação que o capitalismo lunático nos trouxe. Como Marisa, há centenas de milhares de pessoas que se deslocam diariamente para os seus trabalhos de que não gostam e nos quais não encontram qualquer sentido. E mais, esses trabalhos são tão esgotantes que, no final do dia, parece não sobrar energia ou tempo para se dedicarem a coisas de que realmente gostam e que lhes possam trazer qualidade de vida. A isso, adicionam-se os longos tempos nos transportes ou a destruição de espaços comuns de lazer e já não é assim tão surpreendente que Marisa sinta necessidade de se enfrascar em ansiolíticos todos os dias.
Também é verdade que Marisa é uma mulher privilegiada e que a sua situação é melhor do que a de muitas outras pessoas: vive perto do trabalho, tem um salário confortável e conseguiu chegar a uma posição de chefia intermédia que lhe permite que não trabalhe assim tanto. Se Marisa está assim, como estarão aqueles que passam longas horas nos transportes todos os dias, que recebem o salário mínimo ou pouco mais, que trabalham por turnos desumanos ou mais horas do que deviam?
Sem querer estragar, o final do livro deixa-nos, pelo menos, com uma nota ligeiramente esperançosa.
Vi este mês a peça de teatro D’Arrache Corps da Companhia El Salto que aborda muitos dos mesmos temas deste livro (infelizmente acho que já não está em cena). Mas o filme On Falling, de Laura Carreira, conseguem encontrar e vale muito a pena. É sobre uma trabalhadora portuguesa num armazém na Escócia. É um retrato muito realista e duro da precariedade e alienação associadas a estas formas de trabalho.
Estes livros demonstram muito bem que este não é um problema de natureza individual, mas sim estrutural. Enquanto continuarem a existir formas de trabalho altamente exploratórias, precárias e alienatórias, dificilmente podemos falar de trabalho digno.
Precisamos de legislações laborais mais protetoras, de maior segurança no trabalho, de uma contratação coletiva mais forte e menos vulnerável às imposições patronais e, ao mesmo tempo, de uma democratização dos cuidados, para que as trabalhadoras deste setor vejam os seus direitos garantidos.




