Três leituras recentes
Estes foram os três últimos livros que li. São muito diferentes entre si, tanto em género como em tema.
Gente Ansiosa, de Fredrik Backman
Os livros de Fredrik Backman têm circulado bastante pelas redes sociais nos últimos anos, tornando-se recomendações populares e muito frequentes. Fiquei curiosa e quis experimentar, sobretudo porque não são o tipo de livros que costumo ler.
Fredrik Backman é um escritor sueco, autor dos livros Beartown (2021), Gente Ansiosa (2022), Um Homem Chamado Ove (2023), entre outros, editados em português pela Porto Editora.
É difícil fazer um resumo do livro Gente Ansiosa sem estragar a experiência de o ler. Acho que é preferível saber apenas que é uma história sobre um assalto a um banco que corre mal, uma situação acidental de reféns numa visita aberta a um apartamento e um grupo de personagens “idiotas” (como o autor as define desde o início do livro). Se esta descrição não vos faz querer ler o livro, compreendo. Também não tive interesse em ler o livro durante muito tempo, porque lia a descrição e não achava que ia gostar. Mas dêem-lhe uma oportunidade na mesma. Vale a pena.
É um livro absurdo, comovente, leve, espirituoso e reconfortante. Toca em temas mais sérios e pesados do que estava à espera, sobretudo a saúde mental, mas não perde o tom divertido e otimista. A história é cativante e é impossível não gostar das personagens.
O que dizer das personagens? É um grupo diverso com diferentes idades, profissões, origens e dilemas íntimos. À partida, estes estranhos não têm nada em comum uns com os outros, mas à medida que a história se desenvolve, as personagens criam laços entre si de formas inesperadas, por vezes absurdas, mas não por isso menos comoventes.
Penso que a mensagem central do livro é uma de empatia, de que temos mais em comum uns com os outros do que achamos, e para percebermos isso temos apenas de dar uma oportunidade de nos conhecermos melhor, de desconstruir preconceitos e de ouvir o outro.
Às vezes o humor e a história tornam-se um pouco absurdos de mais, pela sua improbabilidade e excessivo otimismo, mas não estragaram a minha leitura. Embora compreenda que o estilo não seja para toda a gente, gostei bastante do livro, a escrita é boa, lê-se bastante bem e acho que é uma excelente opção para quem não lê há muito tempo e quer voltar a fazê-lo ou para quem procura uma leitura mais leve.
Notes on Heartbreak, Annie Lord
Tenho lido mais biografias e livros de memórias recentemente, depois de ter percebido que alguns dos meus livros preferidos tinham um registo autobiográfico (como aqueles de que já falei aqui).
Já tinha visto este livro antes, na livraria Salted Books (em Santos, Lisboa), mas nunca o tinha comprado. Agora, com o kobo (talvez a melhor compra que fiz este ano), tenho muita mais facilidade em experimentar livros diferentes, sobretudo aqueles que não tinha a certeza se queria comprar. Li este livro em inglês mas, entretanto, soube que já existe edição em português pela Cultura Editora, editado no início deste ano.
Annie Lord é uma jovem colunista e jornalista britânica. Notes on Heartbreak é o seu primeiro livro, que foi publicado em 2022.
O livro é uma “meditação lírica e sincera sobre a alegria e a dor simultâneas de estar apaixonado, que ressoará em qualquer pessoa que já tenha sofrido de um coração partido. É uma obra de memórias sobre o melhor e o pior do amor: o eufórico e o doloroso, o belo e o confuso” (sinopse do livro no site da Bertrand).
Ao contrário das sinopses de Gente Ansiosa, esta descreve o livro na perfeição. O livro relata a experiência de Annie a lidar com o fim de uma relação amorosa, através de um conjunto de memórias desde o início do namoro até ao seu fim, e também do período que se seguiu de luto e aceitação.
É um livro brutalmente honesto, que não tem medo nem foge das partes mais feias, tristes, mesquinhas e sim, por vezes, patéticas (mas que fazem parte!) de ultrapassar o fim de uma relação intensa. Ao mesmo tempo, é uma leitura muito divertida e comovente, é quase como se estivéssemos a falar com uma amiga, a trocar experiências e aprendizagens.
Acho que é precisa imensa coragem para escrever sobre uma experiência que é tão sensível, tão íntima. Apesar de cada relação ser única e de cada pessoa lidar de forma diferente com uma separação, é impossível não nos relacionarmos de alguma forma com o que a autora relata. Acredito que qualquer pessoa que tenha passado pelo fim do seu primeiro namoro sério consegue encontrar-se a si mesma nestas páginas, num momento ou outro. É impossível ler o livro e não torcer por Annie, mesmo quando faz erros, mesmo quando não age da melhor forma.
“Instead of being the defining feeling that dictates my life, heartbreak starts to become something ordinary that I just have to endure, a sensation like those others.”
Banho de Sangue Americano, Paul Auster (fotografias de Spencer Ostrander)
Paul Auster (1947-2024) não precisa de introduções. Um gigante da literatura americana contemporânea (e também poeta e realizador), o autor tem inúmeras obras traduzidas em mais de quarenta línguas, muitas traduzidas por ele próprio. Antes deste livro, tinha lido apenas Timbuktu (1999), uma obra muito diferente daquela que é Banho de Sangue Americano.
Este livro, editado pela Edições Asa em setembro de 2024, é um ensaio curto, inteligente e muito claro sobre a cultura de porte de armas na sociedade americana. Com base em experiências pessoais e numa reflexão crítica sobre a forma como o porte de armas se tornou um dos pilares da identidade americana, Paul Auster oferece uma leitura lúcida de um dos maiores problemas do país. O texto é acompanhado por fotografias dos locais de alguns dos tiroteios mais conhecidos, tiradas pelo fotógrafo americano Spencer Ostrander.
O autor traça as origens desta cultura até ao período colonial, mostrando como a posse de armas esteve desde sempre ligada à conquista, à expansão territorial e à formação do país. Recorda que os Estados Unidos nasceram de um processo indissociável do genocídio dos povos indígenas e da escravatura, e que a independência em relação à Grã-Bretanha consolidou a ideia de que o armamento individual era sinónimo de liberdade. Somos conduzidos através da história das armas na sociedade americana, enquanto o autor apresenta explicações de como e por que se chegou à situação atual, analisando a evolução da legislação, o papel do contexto político e a influência crescente da NRA. Embora o livro não explore estes temas a fundo, Paul Auster constrói uma reflexão incisiva. Esta análise é acompanhada de relatos crus e arrepiantes de alguns dos maiores massacres que aconteceram no país.
Apesar do tema, é um livro que se lê bem e rápido, com uma escrita brilhante. Ainda assim, e embora seja curto, é também uma leitura pesada e não muito otimista. É uma boa opção para quem tiver interesse em explorar este tema e quiser uma leitura introdutória.
“Tanto derramamento de sangue e tantas mortes, nesta escala e com esta frequência, pareceria exigir uma ação nacional, um esforço concertado por parte dos governos ao nível federal, estadual e municipal para controlar o que por qualquer critério racional é uma crise de saúde pública. A relação da América com as armas de fogo é tudo menos racional, contudo, e por conseguinte, fizemos pouco ou nada para resolver o problema.”
“A paz só eclodirá quando ambos os lados quiserem, e para que isso aconteça teremos primeiro de fazer um exame sincero e doloroso a quem somos e quem queremos ser como povo que caminha para o futuro, o que necessariamente teria de começar por um exame sincero e doloroso a quem fomos no passado. Estaremos preparados para esse momento nacional de verdade e reconciliação há muito protelado? Talvez não hoje. Mas, se não hoje, quando?”




